A terceira história do
nosso ciclo de contos de Coaching para Crianças foi inspirada numa
entrevista feita com um menino de 3 anos e seu pai após atentado
terrorista ocorrido na França em julho/2016. Uma lição de superação, amor e
perdão.
Flores
e Velas
Era
uma vez um país muito distante cercado de lindas florestas e um mar de azul
intenso. Neste país morava um povo livre, eram pessoas alegres e de coração
bondoso, elas cultivavam o amor pela natureza e respeito ao próximo. Sempre
tinham palavras doces ao falar com outra pessoa. Todos se cumprimentavam com
abraços apertados e um sorriso cheio de calor. Este povo era conhecido como
Florentinos.
Próximo
a este país havia uma outra nação de pessoas de coração pesado que acreditavam
que somente elas tinham razão e deveriam fazer escolhas sobre a vida de todas
as demais pessoas. Estes eram dominantes do país e sempre faziam valer sua
vontade independente do que a maioria pensasse ou quisesse. Este povo era
chamado de Armadilos.
Das
praias do país dos Florentinos era possível avistar a costa do país dos
Armadilos. Mas um grupo jamais invadia as terras do outro. Ao mesmo tempo em
que os Florentinos discordavam da vida que levavam seus vizinhos, eles o
respeitavam, pois acreditavam que cada pessoa deva ter o direito de fazer as
escolhas de como viver sua vida, e assumir a responsabilidade por estas
escolhas. Enquanto isso, os Armadilos olhavam com desconfiança para seus
vizinhos, discordavam de toda aquela liberdade e alegria, e juravam que jamais
aceitariam que se vivesse daquela forma em seu país.
Mas
nem todos os Armadilos pensavam igual. Alguns deles sonhavam com a liberdade e
com o direito de acreditar, de amar e respeitar todos os seres vivos. Muitas
vezes havia batalhas entre os que queria ser livres e os que não queriam que
nada mudasse, estas batalhas eram muito tristes.
Um
dia, um grupo de Armadilos que queriam ser livres fugiu num barco de madeira
que haviam construído com suas mãos, e seguiram em direção ao país
dos Florentinos. Imaginavam que naquela terra poderiam ser felizes e realizar
seus sonhos. Os florentinos sabendo que havia pessoas que pensavam como eles,
os receberam com seus abraços e sorrisos e os acolheram em suas terras e
florestas.
Quando
os demais Armadilos perceberam que alguns tinham fugido ficaram indignados e
com muita raiva. Pois percebiam que aquela fuga era perigosa para destruir seu
país e tudo em que acreditava. E se todos resolvessem fugir? E se todos
buscassem a liberdade? Como o país iria sobreviver? Então certa noite quando
havia uma grande festa da liberdade entre os Florentinos, um grupo de Armadilos
invadiu o país vizinho, entrou na festa disfarçados e, com muitas armas em
punho, atiraram em todos que festejavam. Eles não se preocuparam se eram
crianças, jovens ou velhos, mataram todos que pudessem indicar um novo estilo
de vida, um estilo diferente do deles.
Foi
uma cena de muita tristeza, pois os Florentinos eram pessoas boas, de coração
justo e alma alegre, e foram atacados de surpresa somente porque haviam
recebido de bom grado seus vizinhos que pediram ajuda.
Um
menino Florentino que não estava na festa ao saber do ocorrido chorou muito de
tão assustado que estava. Ele estava com muito medo. Para onde quer que olhasse
somente via dor e sofrimento, e ouvia muitas pessoas serem agressivas e até
mesmo planejar uma vingança contra os Armadilos.
Foi
então que o pequeno menino perguntou a seus pai:
-
Pai, nós teremos que deixar nossa casa?
-
Não filho, aqui onde vivem os Florentinos é nossa casa, e sempre será nossa
casa. Esta é uma terra boa de homens bons.
-
Mas pai, vieram homens maus. E eles tinham armas.
-
Sim.
-
Então teremos que ter armas para nos defender deles também?
-
Não, filho, nós não precisamos de armas porque temos flores.
-
Mas as flores não tem poder contra as armas.
-
Talvez. Mas se tivermos armas, eles trarão canhões. E se tivermos canhões, eles
trarão um foguete. E assim nós deixaremos de ser bons e também seremos maus. Nós
teremos flores e velas.
-
E como as flores podem nos proteger?
-
Porque elas simbolizam o amor.
-
E as velas também vão nos proteger?
-
Sim, porque elas simbolizam as pessoas que se foram. Elas vão nos lembrar de
não termos a vaidade da vingança. Então sim, elas vão nos proteger também.
O
menino com um olhar duvidoso, respirou profundamente e fechou os olhos como se
absorvesse cada palavra dita por seu pai.
-
Filho, você se sente melhor agora?
-
Sim. Temos flores e velas. E o amor que irá nos proteger.
Então
o menino saiu dos braços de seu pai e pegou uma das flores que estavam no chão.
Seguiu caminhando lentamente, como se flutuasse, em direção a praia. No mar ele
colocou delicadamente a flor que havia apanhado, e assoprou como se quisesse
empurrar a flor na direção de seus vizinhos.
O
pai de longe, ao ver a cena protagonizada por seu filho, deixou escapar uma
lágrima e um sorriso. Enquanto houvesse flores e velas, haveria amor. Enquanto
houvesse amor, haveria esperança. E seu filho era tudo isso: amor e esperança.
