A quarta e última história
do nosso ciclo de contos para Crianças fala de medo e insegurança. Aqueles
momentos em que deixamos nossos sonhos passarem, irem embora e nos acomodamos
numa zona de conforto. Quando o medo de tentar é maior que o medo de não
conseguir. Inspirado na musica Mestre Jonas de Sá, Rodrix e Guarabyra.
Jonas
e a baleia
Num
vilarejo de pescadoras viviam dois irmãos, Jonas e João. Eles ajudavam seus
pais em tudo naquela vida pacata do vilarejo. Enquanto um ajudava o pai a
pescar o outro colhia frutos das árvores com a mãe.
O
pai de João e Jonas resolveu quer era hora de construir uma casa maior, e se
pôs a criar uma casa diferente de todas as do vilarejo, que eram feitas de
folhas de bananeira e troncos velhos.
Um
dia veio uma tempestade muito forte, que derrubou a casa nova e levou os pais
de Jonas e João para o mar, e estes nunca mais foram vistos. Os dois irmãos nos
aprenderam então a viver sozinhos. Porem, enquanto um era ousado e via tudo
como uma oportunidade, o outro tinha muito medo de mudanças.
Quando
se tornaram adultos Jonas disse ao irmão que não queria mais viver no vilarejo
que só lhe trazia saudades dos pais. Disse que procuraria um lugar seguro para
viver. Foi quando Jonas encontrou uma linda baleia branca na praia que lhe
disse que não gostava de viver sozinho e o convidou para morar dentro dela. A
baleia iria protegê-lo dos males do mundo e alimentá-lo com pequenos peixes e
crustáceos, e em troca Jonas deveria apenas fazer-lhe companhia.
E
assim, Jonas foi morar dentro da baleia, não por obrigação, mas por vontade
própria. Lá nada o incomodava ou atrapalhava seu silencio e sua paz, sem medo
ou preocupações. Ele e a baleia conversavam a noite e passavam muitos momentos
em total silencio no fundo do mar.
Quando
a baleia vinha à superfície, Jonas ficava de longe a observar a vida que continuava
seu ritmo no vilarejo. E à distância, ele via o João, seu irmão, sozinho. Mas
João não parecia triste, estava sempre fazendo alguma coisa, e uma coisa
diferente.
Na
primeira vez que reparou em seu irmão, João parecia inventar uma faca para cortar
os peixes, feita com coco e pedra afiada. Ele amarrava o pedaço de pedra com
barbantes, mas a pedra teimosa continuava a cair. Ele repetiu a tentativa
diversas vezes, ora com barbante, ora com fio de folha de bananeira, até que na
milionésima vez teve sucesso.
Na
vez seguinte, Jonas viu seu irmão tentar consertar o telhado da casa, após uma
tempestade, tempestade esta que sequer o incomodou porque ele estava dentro da
baleia. Ele viu que João tentava a todo custo cobrir a casa com palha, mas o
vento forte não deixava nada ficar no lugar. Então percebeu que uma mulher
ruiva se aproximava de João e o ajudava a fixar a palha. E ela sorria com
carinho para seu irmão. Ele não se lembrava de tê-la conhecido antes. João não
nunca mais estaria sozinho.
Cada
vez que vinha à superfície admirava seu irmão e suas conquistas. Imaginava se
ele tinha medo, ou se não seria melhor que ele tivesse ficado numa baleia como
ele.
Mas
da ultima vez em que sua baleia o trouxe próximo a praia foi que ele viu algo
que o surpreendeu. João caminhava próximo ao mar de mãos dadas com a mulher
ruiva e vinha seguido de três crianças: uma menina bem pequena e dois meninos
que se pareciam muito com Jonas e João quando eram crianças. E aquela cena o
tomou de alegria e saudades do tempo em que vivia no vilarejo com sua família.
Será
que algum dia ele voltaria? Será que algum dia ele também construiria sua casa,
como fez seu irmão? Será que algum dia ele também teria filhos? E de repente,
Jonas viu seu rosto refletido na água e se deu conta do quanto o tempo havia
passado e como ele estava velho e sozinho. Durante a sua vida toda sua única
amiga havia sido aquela baleia branca, e durante todo este tempo ele não tinha
se preocupado com nada. Mas agora via como tinha perdido tempo, perdido
oportunidades: de acertar e erro, em especial de vencer seu medo. E afinal de
que ele tinha tanto medo?
Ali
em pé, na boca da baleia, ele já não lembrava mais, só conseguia sentir uma
imensa vontade de fazer algo diferente, de ser um Jonas diferente, um Jonas
fora da baleia...
E
neste instante, Jonas pulou no mar, deu adeus a sua baleia e nadou em direção a
praia sem saber o que iria encontrar sem saber se conseguiria chegar, mas
sentindo-se pleno por ter se permitido esta nova aventura. E com certeza ele
chegaria aonde jamais havia pensado, chegaria a um novo sonho.
